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ZIKA VÍRUS: TIRE SUAS DÚVIDAS!
1. Que doença é Zika?
É uma doença infecciosa aguda causada por um vírus da mesma
família que o da febre amarela e da dengue (família Flaviviridae), e é tam-
bém uma arbovirose (doença viral transmitida por artpodes, como os
mosquitos). Tem a característica de ser transmitida através da picada de
mosquitos do gênero Aedes, que funcionam como transmissores ou veto-
res da doença. Febre Chikungunya, febre amarela, dengue e Zika são todos
transmitidos pelo mosquito do gênero Aedes.
2.
Como ela surgiu?
Os primeiros relatos da doença foram feitos em 1947, em Uganda,
na fl oresta de Zika, daí veio seu nome. O primeiro caso documen-
tado em humanos foi em 1964 e, em 2007, houve um pequeno surto
de casos em algumas ilhas do pacifi co, na Micronésia, e a seguir um
relato de um surto de maiores proporções na Polinésia Francesa, em
2013. Até que em maio de 2015, foi registrado o primeiro caso autóc-
tone no Brasil, atingindo grandes proporções no fi nal de 2015 até o
presente momento, expandindo-se para vários países do continente
americano.
3.
Como chegou ao Brasil?
Existem duas boas hipóteses: a primeira que o Zika vírus foi intro-
duzido na época da Copa do Mundo de Futebol, em junho de 2014,
visto que ocorreram jogos em algumas cidades do nordeste do Brasil,
como Natal e Recife, e alguns meses depois se iniciou a observação
de casos clínicos, provavelmente relacionados ao Zika vírus. A outra
hipótese, mais aceita, é que sua introdução no Brasil se deu após o
campeonato mundial de canoagem, realizado no Rio de Janeiro em
agosto de 2014, onde tivemos participantes de varias ilhas do pacífi -
co, como Polinésia Francesa, Micronésia, Ilhas Cook e Ilha de Páscoa.
Devido à similaridade genética da cepa brasileira com a cepa que cir
cu-
lou na Polinésia Francesa, acredita-se que esta seja a via de entrada mais
provável. Possivelmente pessoas assintomáticas, porém da fase de viremia,
estiveram no nosso país, e uma vez que temos a presença expressiva do
Aedes aegypti, é fácil imaginar a possibilidade de introdução e dissemi-
nação do Zika vírus no nosso meio.
4. Que outros países estão ocorrendo casos
da doença?
Países da América Central e Caribe, México, além de Brasil, Equador, Argen-
tina, Colômbia e Venezuela já confi rmaram casos. Porém a disseminação do
vírus em toda a América é uma questão de tempo. Acredita-se que somente
Chile e Canadá serão poupados por apresentarem condições desfavoráveis
para a reprodução do mosquito transmissor.
5. Como se transmite a doença?
A forma clássica de transmissão da doença é at-
ravés da picada do mosquito fêmea do Aedes.
Existem dois gêneros diferentes de Aedes
capazes de transmitir a doença, o aegypti e
o albopictus. É necessário que o mosquito
pique um individuo doente no momento da
viremia, onde há circulação do vírus Zika
no sangue. O vírus então pode ser transmit-
ido quando o mosquito picar outra pessoa
suscetível. Uma vez que a fêmea do mosquito
estiver contaminada pelo Zika vírus, ela passa a
transmitir o vírus durante toda a sua vida.
5. Como se transmite a doença?
orma clássica de transmissão da doença é at-
ravés da picada do mosquito fêmea do Aedes.
Existem dois gêneros diferentes de Aedes
capazes de transmitir a doença, o aegypti e
o albopictus. É necessário que o mosquito
pique um individuo doente no momento da
viremia, onde há circulação do vírus Zika
ido quando o mosquito picar outra pessoa
suscetível. Uma vez que a fêmea do mosquito
estiver contaminada pelo Zika vírus, ela passa a
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ZIKA VÍRUS: TIRE SUAS DÚVIDAS!
6. Existe transmissão do Zika vírus por
contato social, por exemplo, no ambiente de
trabalho?
Não! A transmissão só ocorrera se houver o vetor (mosquito) no ambiente e
se ele estiver infectado após ter picado um doente.
7. Existem outras formas de transmissão?
Sim, recentemente foram descritos casos de transmissão através de trans-
fusão sanguínea e por via sexual, o que fez alguns órgãos americanos a
recomendarem a proteção através de métodos barreira (camisinha) para
parceiros sexuais sintomáticos de gestantes, ou aqueles que estão retornando
de áreas com casos documentados de Zika virose. A transmissão sexual, a
o presente momento, foi relatada somente por pacientes sintomáticos e do
homem para a mulher. O vírus também já foi encontrado na urina e saliva
de pessoas doentes, o que, em tese, pode tornar essas vias possíveis de trans
-
missão, porém, até o momento, essas vias de transmissão não foram docu-
mentadas.
8. Quanto tempo leva entre a picada
do mosquito e o aparecimento dos primeiros
sintomas?
Normalmente, o período de incubação é curto, variando entre 3 a 12 dias.
9. A doença é facilmente reconhecível? Quais
os sintomas?
A infecção aguda causada pelo Zika vírus, habitualmente, é leve, caracteri-
zada por “rash” cutâneo (erupção avermelhada da pele) e prurido (coceira),
que pode durar alguns dias até no máximo uma semana. A febre é variável,
geralmente baixa, podendo até estar ausente. Alguns pacientes apresentam
conjuntivite (olhos avermelhados) e edema (inchaço) de articulações. Não
se observam fenômenos hemorrágicos na infecção aguda causada pelo Zika
vírus, diferente do que pode ocorrer na infecção pelo vírus da dengue. A dor
articular costuma ser mais branda, e bem mais curta que a relatada nos casos
de Chikungunya.
10. Quais as diferenças entre dengue, Zika e
chikungunya?
A dengue é uma doença de quadro clínico geralmente mais exuberante, com
febre mais alta, mal estar e dores pelo corpo. Fenômenos hemorrágicos po
-
dem acontecer sendo uma das principais complicações da doença. A febre
Chikungunya é caracterizada pela intensa dor e inflamação das articulações,
que por vezes pode durar até meses. A infecção aguda causada pelo Zika vírus
pode ser confundida com outras arboviroses, como a dengue ou Chikungun
-
ya, não sendo possível estabelecer o diagnóstico de certeza somente baseado
no quadro clinico.
11. Como posso saber se estou com a
doença? Existem exames?
O diagnóstico de certeza pode ser realizado através de exame de RT-PCR
(reação de cadeia de polimerase em tempo real), que nada mais é que a de
-
tecção do próprio vírus por técnicas moleculares. Esta pesquisa pode ser feita
em vários materiais biológicos, geralmente sangue e urina do paciente sus
-
peito. Este exame, apesar de bastante específico, tem duas limitações impor-
tantes: elevado custo e não disponibilidade em larga escala, além do fato da
viremia (presença do vírus no sangue) e virúria (presença do vírus na urina),
serem relativamente curtos, até 5 e até 8 dias, respectivamente, ou seja, se não
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realizarmos o exame da pesquisa do vírus na fase aguda da doença, podem-
os ter resultados negativos, apesar de ter sido um caso de Zika. Exames que
pesquisam os anticorpos (sorologias) são capazes de identificar casos na fase
aguda e também reconhecer indivíduos que já adoeceram.
12. Qual o tratamento?
o há um tratamento específico para o Zika vírus. Somente medicamentos
sintomáticos, que visam aliviar as dores, a febre e a coceira quando presentes.
13. Que complicações a doença pode levar?
A maioria das complicações é neurológica, como a Síndrome de Guil-
lain-Barré, que é uma paralisia ascendente e progressiva dos nervos periféri-
cos, simétrica, podendo inclusive acometer o trato respiratório, sendo sempre
necessária internação hospitalar e cuidados intensivos. A síndrome de Guil
-
lain-Barré pode até levar à morte se não diagnosticada e manejada a tempo.
Outras complicações recentemente descritas, quando a infecção atinge uma
gestante, são as más formações congênitas fetais, como a microcefalia, pre
-
sença de calcificações cerebrais, hidrocefalia, entre outras. Há casos de má
formação articular do feto, como a artrogripose. Também já e foram descritos
casos de encefalite, provavelmente relacionadas ao Zika vírus.
14. Por que a doença é mais grave em
gestantes?
O Zika vírus, quando infecta uma gestante, entra na corrente sanguínea, at-
ravessa a placenta e atinge o sangue fetal. Como tem uma grande afinidade
pelo sistema nervoso, acaba acometendo gravemente a sua formação, levando
a alterações irreversíveis como a microcefalia e outras alterações anatômicas.
Tem-se observado um maior risco de microcefalia e outras más formações
neurológicas fetais quando a gestante adquire a infecção aguda no primeiro
trimestre de gestação, por ser esta a fase de formação do feto.
15. Qual a chance de uma grávida com Zika
vírus ter um bebê malformado?
Esta pergunta, infelizmente ainda não tem uma resposta exata. O que sabe-
mos é que as malformações estão mais relacionadas às gestantes que se in-
fectaram e tiveram sintomas da doença do que em gestantes assintomáticas.
Estima-se que 80% das grávidas cujo feto apresentou microcefalia, tiveram
quadro clinico da doença; também sabemos que o risco é maior quando a
infecção materna acorre no 1º trimestre da gestação. Existem casos descritos
de malformação fetal também no 2º trimestre da gravidez, mas este risco é
menor nesta fase, assim como no 3º trimestre.
16. A microcefalia é a única consequência da
doença na gestação?
A microcefalia não é a única malformação que se tem observado. Podemos
ter recém-nascidos com perímetro cefálico normal, porém com presença de
calcificações no cérebro, como uma “cicatriz” após uma agressão pelo Zika
vírus. Estas calcificações também são observadas em outras infecções con
-
nitas, como toxoplasmose, sífilis e citomegalovirus, porém de forma diferente
do que temos observado com o Zika vírus. Além disso, podemos observar
outras alterações cerebrais como hidrocefalia.
17. Crianças que se infectarem pelo Zika vírus
podem desenvolver microcefalia ou outras
sequelas neurológicas?
o. As infecções que acometem crianças, jovens e adolescentes tem a mes-
ma evolução daquelas ocorridas nas demais faixas etárias.
Este é mais um equívoco criado que deve ser desmistificado.
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ZIKA VÍRUS: TIRE SUAS DÚVIDAS!
18. Vacinas vencidas podem ser a causa da
microcefalia?
Definitivamente não! Não existe essa possibilidade. As vacinas indicadas para
gestantes, como gripe, hepatite B, tétano e coqueluche, são extremamente se
-
guras, de uso consagrado em todo o mundo, há décadas, sem relatos de com-
plicações ou malformações no feto. Este é um dos mitos que foram criados de
forma irresponsável.
19. A ultrassonografia reconhece uma
microcefalia logo no começo da gravidez?
A ultrassonografia é um exame muito importante e deve ser utilizado de roti-
na na gestação, porém, no caso do Zika vírus, o diagnóstico de microcefalia é
feito somente várias semanas após a infecção da gestante, em geral a partir da
20ª a 29ª semana de gestação, o que tem criado grande ansiedade nas grávi
-
das. Recomenda-se ultrassom em todas as gestantes com suspeita de infecção
pelo Zika vírus em número maior do que o habitualmente preconizado.
20. Quais as consequências da microcefalia
para o desenvolvimento da criança?
Como a infecção pelo Zika vírus é muito devastadora no cérebro do feto,
as crianças com microcefalia ou outras alterações cerebrais relacionadas ao
vírus, tem um potencial enorme de apresentarem importante dano cerebral,
com atraso no desenvolvimento neurológico assim como no desenvolvi
-
mento motor. Espera-se também comprometimento da audição e em muitos
casos da visão.
21. Como posso me prevenir da doença?
A melhor forma de prevenção é impedindo a picada do mosquito. Para tal,
recomenda-se o uso de repelentes aprovados pela Anvisa, como aqueles que
contêm como base a icaridina, o DEET e o RA3535. O uso de roupas claras,
mangas compridas e calça comprida, diminuído a exposição da pele para o
mosquito, também é fortemente recomendado. Assim a área exposta é menor
e a quantidade de repelente necessária para a prevenção também diminui.
Outra forma importante de prevenção é eliminando os focos e criadouros das
larvas do mosquito, especialmente na sua casa e local de trabalho. O mosqui
-
to é urbano, está próximo de nossa casa e voa distâncias pequenas. Assim é de
fundamental importância não deixar possíveis locais que possam acumular
água próximos de nossa casa, como, lixos, pneus, pratinhos de plantas, etc.
22. Crianças podem utilizar repelentes?
Bebês pequenos, especialmente os menores de 6 meses de idade, não devem
utilizar repelentes e devem se proteger através de métodos de barreira ao
mosquito, como os mosquiteiros e telas em portas e janelas.
23. Existem diferentes tipos de repelentes,
qual deles devo usar?
Existem três tipos de repelentes aprovados pela Anvisa. A primeira
recomendação é que você não use repelentes caseiros, ou “milagrosos” que
não tenham comprovação científica de sua eficácia. Em tempos de Zika, den
-
gue e Chikungunya, não está fácil encontrar no mercado esses repelentes,
mas estes são os únicos recomendados. A icaridina tem a característica de
ação protetora mais prolongada quando comparado com aqueles a base de
DEET e RA3535. Você deve seguir a recomendação do fabricante, que es
escrita na embalagem.
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24. Grávidas podem utilizar repelentes?
Sim, podem e devem! Todos os repelentes licenciados no Brasil podem ser
utilizados pelas grávidas. O uso de roupas que cubram a maior parte do corpo
reduz a quantidade de repelente que deve ser aplicado.
25. Devo evitar viajar para alguma região do
país?
Esta pergunta é difícil de responder para nós que vivemos no Brasil. Para
uma gestante que vive em local livre do Zika, recomenda-se não viajar para o
Brasil e outros países com circulação do vírus, especialmente nos primeiros
meses de gestação. Para nós que vivemos no Brasil podemos recomendar que
gestantes evitem viajar para áreas onde o vírus está com maior circulação,
porém este mapeamento é bastante dinâmico e pode se alterar em pequenos
espaços de tempo.
26. Estou pensando em engravidar, devo
adiar meus planos?
Se sua gestação é planejada, a oão ideal é adiar a decisão de engravidar, pois
não se conhece ainda o real risco de acometimento do bebê no caso da in
-
fecção ocorrer numa gestante. Outro motivo para adiar os planos de gestação,
é que, em breve, esperamos dispor de melhores métodos diagnósticos para o
Zika vírus, e assim poder dar respostas mais exatas e rápidas para os pacientes
que apresentem quadro clinico suspeito da doença.
27. Estou com Zika vírus, posso amamentar?
Se a mulher teve Zika vírus durante a gravidez e não está mais com a doença,
a resposta é sim! A amamentação poderá até ser protetora pela passagem dos
anticorpos desenvolvidos pela mãe após a infecção. No caso de uma infecção
aguda durante o período da amamentação, existe o risco teórico de passagem
do vírus pelo leite materno e a suspensão da amamentação nessa fase aguda
deve ser considerada.
28. Tive Zika e quero engravidar. Quanto
tempo devo esperar?
Esta pergunta ainda não tem uma resposta baseada em evidência cientifica,
mas várias autoridades pelo mundo estão recomendando seis meses de inter
-
valo entre a infecção confirmada e uma gestação. Este tempo provavelmente
é maior que o necessário, mas numa fase de incertezas, o ideal é seguir esta
recomendação.
29. Vamos poder contar em breve com uma
vacina?
Desde o início da epidemia muitos pesquisadores de vacinas iniciaram uma
corrida para desenvolver, em um menor tempo possível, uma vacina contra
o Zika vírus. O problema é que este desenvolvimento, por mais desejado que
seja, leva alguns anos, no melhor cenário 3 a 5 anos. Assim, esperamos ter
uma vacina contra o Zika vírus, porém não em um curto espaço de tempo.
30. Meu marido teve Zika, posso engravidar?
Como estão sendo descritos casos de transmissão por via sexual, a
recomendação é que se evite relação sexual desprotegida por 2 meses após a
infecção do seu parceiro sexual. Caso você já esteja grávida e seu parceiro sex
-
ual apresente quadro suspeito de Zika vírus, a recomendação é usar métodos
de barreira durante toda a gestação.
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ZIKA VÍRUS: TIRE SUAS DÚVIDAS!
31. Estou muito interessada em ler
sobre a epidemia, mas recebo muitas
informações pelas redes sociais. Posso
confiar nestas informações?
As redes sociais são um excelente veículo de comunicação e in-
formação, porém, em alguns casos, pode trazer informações
distorcidas e não verdadeiras. O ideal é que você procure
se informar através de sites reconhecidos e sérios, como os
das Sociedades Científicas, por exemplo, o da Sociedade
Brasileira de Infectologia, Sociedade Brasileira de Imuni
-
zações, Anvisa, entre outros.
Renato Kfouri
Médico Pediatra CRM 59492-SP
Rosana Richtmann
Médica Infectologista CRM 50470-SP